In EXPO PASSADA

Constança Meira

Isolamento e Silêncio

Inauguração quinta-feira, 21 outubro | das 17h às 20h
Exposição: de 22 outubro até 20 novembro de 2021 | Segunda a sábado, 14h30 – 19h

Galeria Sá da Costa | Rua Serpa Pinto, nº19, 1200-443 Lisboa

Em “Isolamento e Silêncio“, Constança Meira apresenta uma série de obras de técnica mista (monotonias e colagens) sobre papel, realizadas em 2020, durante o seu confinamento. Recorrendo à sua vivência durante este período, a artista instaura um universo dual entre o bem e o mal, o anjo e o demónio, a beleza e a bestialidade, criando uma ponte entre o quotidiano e o sobrenatural.

 

Fragmentos de um discurso interior

por José Sousa Machado

As obras de Constança Meira expostas agora na Galeria Sá da Costa, reunidas sob a designação “Confinement and silence”, são epifanias de sabor tenebrista, às vezes, vitoriano, outras vezes, salpicadas de laivos bucólicos. São narrativas íntimas povoadas por seres reais e entidades ‘imaginárias’ oriundas de outros planos de existência; enredos experienciados, rememorados ou recriados pela artista num solilóquio de silêncio e confinamento prolongados. 

Num texto que redigi há cerca de dois anos sobre as monotipias e colagens de Constança Meira, afirmei que elas estão para além da circunstância particular da sua autora, para além do mundo e para além do tempo. Transportam em si mesmas uma semente de intemporalidade que lhes confere permanência e qualidades universais; emanam qualquer misterioso aceno proveniente da raiz do ser. A sua expressividade perscruta o Além, algures na linha que conduz desde a dor até à contemplação. 

Tal como então, também agora, em muitas das obras expostas, a artista representa-se simultaneamente como pessoa individual e como arquétipo, baloiçando, num vai-e-vem contínuo, entre o real e o simbólico, entre o bem e o mal, entre a vida e a morte. As suas recordações são frescos pintados nas paredes da memória. 

Profundamente tocada pela pintura italiana antiga – sobretudo a pintura afresco -, na qual o tempo selou com patine o seu decurso inelutável, penhor também do seu estatuto de co-autoria em qualquer empreendimento humano; marcada, escrevia eu, por esta consciência ontológica que conduz a vida e a morte no mesmo carril, Constança Meira desenvolveu uma técnica criativa de pintura por decalque directo da cor sobre o suporte, investindo as suas obras de uma idêntica aura de intemporalidade e síntese simbólica – como se as suas pinturas carregassem nelas toda a história da cultura humana, sendo a artista o repositório de todo o tempo do mundo e dos acontecimentos que o pontuam. Qualquer gesto seu reflecte e exprime este peso holístico.

Na exposição actual, a densidade expressiva habitual nas obras de Constança Meira é ampliada pela conjugação de monotipias coloridas recortadas com pormenores de pinturas emblemáticas da cultura universal, configurando puzzles fragmentários, composições a muitas vozes, novelos de linhas de espaço e tempo que nos disparam para muitas direcções e o completo esboroamento das noções correntes de perspectiva e espacialidade, como se a artista, na esteira de Plotino (citado por Maria Filomena Molder), nos pretendesse dizer que “a forma é o vestígio de uma realidade sem forma” e que “a aformidade (…) a indistinção sem limites, é como uma presença que habita em todo o lado, como um som enche o silêncio do espaço” (Eneadas III, 8-9), fonte inesgotável de luz; luz que cega e unifica todas as formas num véu imaterial, imagem do Uno, ideia que permitiu a Proclo – o ´Divino    Proclo´- considerar “o espaço como a mais subtil das luzes”.

Indivíduos encapuçados, de rosto velado, envoltos em ricos panejamentos esvoaçantes, interagem com serpentes aterradoras, meninas pueris, monstros esfacelados, donzelas reclinadas em ambientes bucólicos e, até, um senhor respeitável usando chapéu alto que cruza a sombra dos caminhos com semblante altivo. Uma litânia de assombramentos, em suma.

 

Constança Meira 

Constança Meira é uma artistas com referências universais; nasceu em Paris, 1965, estudou em Cleveland (Ohio, USA), em Florença e em Lisboa, onde reside. Na sua pintura ressoam os frescos renascentistas italianos e a desconstrução moderna do “Novo mundo”. As suas obras ”são epifanias que ressoam a Além; são imagens que estão para além da sua autora, para além do mundo, para além do tempo. Transportam em si mesmas uma semente de intemporalidade que lhes confere permanência e qualidades universais; emanam qualquer discreto aceno oriundo da raiz do ser”.

"The innocence", 2020
Colagem com Monotipia, 26 x 18 cm
Fotografia de Carlota Costa Cabral