In EXPO PASSADA

Frederico Pratas

Close up

Curadoria de André Almeida e Sousa

Exposição: de 30 maio a  18 de junho, de 2022  | segunda a sábado das 14:30h-17h

Galeria Sá da Costa

Estátuas desmembradas 

Por André Almeida e Sousa

Numa pintura de 2013 o pintor detém-se a observar a transformação do enquadramento in situ, ou melhor, o seu duplo observa e nós os espectadores, tornamo-nos cúmplices deste jogo de espelhos. A mise en scene repetir-se-à noutras pinturas, mas para já, acompanhemos esta:

De chapéu e de costas para nós, o pintor, um súbito Humphrey Bogart com laivos de Monsieur Hulot, sobe da base do quadro para a boca de cena. O carro caricaturado à esquerda, adereço de cinema noir, diz-nos que é preciso fazer um percurso para aqui chegar. O quadro continua a subir e das moles montanhas surge a noite clara e absurda. Dentro de casulos onde se esfregam árvores raquíticas volteiam massas de imagens prestes a irromper. A cor e o desenho da paisagem mostram uma acidez açucarada, simultânea, como uma sanduíche feita de camadas de ambiguidade onde nos detemos perplexos.

Na pintura de Frederico Pratas, são múltiplas as proveniências das imagens invocadas: literárias, cinéfilas, do mundo da B.D. à ilustração, da história da pintura e do desenho às fugazes paródias do Instagram, entre outras voragens da imagem de ecrã. De todo este arsenal, o artista parece retirar várias dúvidas de carácter ontológico, dúvidas constantes, sobrepostas: Como chegar “aqui”? Qual a sequência dos procedimentos da matéria que compõe a imagem e que lhe dá corpo? Como é o fundo e como é a figura? O que é pintura?
Como pintores, vemos de que modo estas perguntas entram em curto-circuito no acto performativo da pintura. É na prática que surgem as metamorfoses da forma, é na esquadria e no ecrã que se fixa o tempo lento da pintura.

Voltando à pintura de 2013, nela vemos o duplo do artista (e com ele estamos nós) a contemplar ou invocar a sequência (i)lógica de acontecimentos, procedimentos que, entretanto, se fazem imagem/pintura. Vemos o comportamento da tinta, o que oculta e o que revela. Esta maneira de aceder à pintura implica a aceitação da ironia perante o que é ao mesmo tempo contentor e revelação, encenação e matéria. Como na restante produção que esta exposição apresenta, maioritariamente pinturas recentes, a pintura de Frederico Pratas marca o estranho lugar onde o real e o virtual se misturam. Talvez por isso, se propague por todas as pinturas a impressão de algo contido a esticar a membrana do contentor que o enclausura. Estes trabalhos afirmam duplicidades que se aceitam, complementares: vísceras e pele, dentro e fora, e é neste terreno que se compõem estas imagens e as circunstâncias da sua invocação; que se afirma a temporalidade errática dos gestos e arritmias, onde inúmeros soterramentos ocorrem. Também se revela, que é assim que o artista e o seu duplo se diluem na superfície da pintura, carregados de sobreposições, levados por gestos onde ecoa uma pergunta surda num lugar remoto – “aqui”, lugar de todas as entidades ditas referências, do seu inevitável aparecimento fantasmagórico surgindo de rompante num estardalhaço frenético que o corpo do artista propaga conforme o desenrolar do atrito ou leveza da matéria.

O duplo parece perguntar: como apagar as provas incriminatórias do crime? Ao mesmo tempo, observa as delícias do que lhe aparece, do que impregna o gesto de corpo, das voltas e revoltas da memória. Respira o tempo que desmembra estátuas com mais habilidade do que um artesão, e mesmo de costas para nós, conseguimos imaginar o seu sorriso irónico.

 

Um fora que é também dentro…

Por Pedro Arrifano

Escreve-se, pinta-se, compõe-se sempre com a multiplicidade que há em nós, projectados para um fora. O sujeito-criativo é sempre colectivo, sem identidade/ e pura diferença, irreconhecível para ele próprio e para os outros. Dessa forma, quando se analisa um artista é fundamental procurar nele a sua diferença, a sua desadequação, que projecções faz/fez. Nas suas obras Frederico Pratas não demonstra os vários modos de existência de um corpo, como de forma superficial se pode pensar. O artista demonstra que um corpo para existir tem antes de persistir. E esta é uma questão complexa, pois liga-nos às potências que um corpo tem em si; de outra forma, aproxima-nos às essências. Que essências se escondem num corpo? Que essências estão ocultas no artista e quais é que ele quer ver desveladas? 

Não cabe aqui a revelação, mas sim a investigação…o jogo. E essa/ esse começam desde logo ao observarmos o puzzle de obras que compõem o seu corpus artístico. Que forças, que “a-formalidades” pré-reais estão na base das obras que realiza? A questão assim colocada visa descobrir e tornar consciente algo que permanece encoberto e desconhecido por aquele que analisa a obra (o receptor da mesma) e mesmo pelo seu criador. Ambos são parte activa no processo do desocultar um “eu-obra”. Frederico Pratas estimula a imersão do observador, um impulso lúdico que, quando equilibrado, se liberta das limitações da sensibilidade e da razão e a partir de um salto dialéctico supera esta oposição e acaba por resgatar o potencial de emancipação no espaço de jogo da arte. O jogo aqui tem um tempo próprio, uma narrativa própria e é desenvolvido pelo artista para estimular a imersão do espectador.

Nas obras expostas é visível a pressão permanente provinda de um excesso que perturba os organismos vivos, havendo então a exigência do desperdício, do gasto ou da descarga.  O rosto, as figuras, as texturas densas…os “close-up” que marcam um primeiro plano. O rosto no primeiro plano tem a função de retirar, abstrair a figura do espaço-tempo. Nesse momento em que o rosto ocupa a tela inteira – desaparece o bloco espaço-tempo. Surge uma singularidade, oculta-se o indivíduo. O sentimento desaparece, e começa a aparecer o visceral. Aqui o meio histórico secundariza-se, ou seja, o artista preocupa-se em extinguir o visível, o observável. De certa forma procura extinguir o mundo real, esgotar no lugar onde se “está”. A prática, a imagem-visceral é uma prática de exaustão, de contenção da violência, uma violência estática, contida, diferente da imagem realista pois estende-se até a uma imagem predadora, intensa. Engole tudo o que a rodeia ao esgotar os comportamentos,  ao destruir  os sentimentos, as emoções, e os comportamentos. As obras do artista mostram os excessos, um prolongamento do realismo ligado a um movimento intenso/ e expressivo. Nas obras de Frederico Pratas “expressão” significa a existência de alguma coisa que está escondida e que, por algum sintoma se torna visível.  Neste caso em particular, o artista “mostra-se” na sua invisibilidade através da intensidade do movimento e da figura num espaço desconectado. Movimento intenso porque não tem corpo, ; não há corpo dentro dele a aparecer no mundo, mas uma violência, uma explosão dentro dele que não vem para fora… É uma estética da convulsão… de alguma coisa que quer vir para fora e não vem…fica retida no óleo sobre a tela…essências cativas que engrandecem quem vê e é visto.

Frederico Pratas

Nascido em Angola em 1967, trabalha e vive em Lisboa. Iniciou-se na pintura em 2009 através de um aprendizado informal. Artista Residente na MART entre 2014 e 2021 e na A BASE desde 2021

Tem participado em diversas exposições coletivas desde 2013, que se realçam diversas exposições na “Galeria Sá da Costa”, “Museu Nacional de Arte Contemporânea”, “Istituto Centrale per la Grafica” em Roma, “Museu Nacional de História Natural e Ciência”, “Casa-Museu Medeiros e Almeida”, “Museu Nogueira da Silva”.  

Participação no projeto expositivo “Orto di Incendio”, decorrente da tradução para italiano da obra “Horto de Incêndio do poeta Al Berto.  

Está representado na coleção particular da Fundação Calouste Gulbenkian.

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