In EXPO PRESENTE

HElena Valsecchi

Synecdoche

Inauguração: 23 junho, das 17h às 20h
Exposição: de 24 junho  a 23 julho, de 2022  | segunda a sábado das 14:30h-17h

Galeria Sá da Costa

O desenho e a escultura são dois meios artísticos centrais no trabalho de HElena Valsecchi (Novara, 1976), que lhe permitem explorar e experimentar formas, metodologias e temas estreitamente ligados à representação iconográfica e poética na pintura sobre papel e na escultura, através de uma relação acentuadamente mais física, mesmo na ausência de um corpo, ou perante corpos imaginários. A artista tem vindo a desenvolver uma pesquisa sobre questões metafísicas, marcadas por uma aura de espiritualidade que nos interroga sobre a nossa relação histórica com as representações da sacralidade, no sentido das questões paradoxais imanentes à própria vida, por um lado religiosa, enquanto espaço sagrado, mas por outro lado profana, mundana e secular. Sob este aspecto, e no contexto desta exposição, Valsecchi tem vindo a trabalhar numa obra que se relaciona, de um modo intenso, com a sua vida e integra uma outra ferramenta de cariz conceptual, a linguagem, na figura de estilo sinédoque.

“Synecdoche”, numa aproximação à palavra em língua grega, é o título da obra central da exposição, que integra também uma escultura de singular importância, e que pertence a este universo. A obra “Synecdoche”1 agrega uma grande complexidade de acções, espaços e gestos, podendo ser entendida como um work in progress, e como um projecto/estado de vida da artista. Valsecchi pensa esta obra como um processo quase diarístico, que será continuado no seu tempo de vida e se estriba numa esfera numinosa que atende a Rudolf Otto, autor central na pesquisa e no pensamento que a artista desenvolve.

A obra foi iniciada no final do ano de 2020, por ocasião da sua participação nas Residências Artísticas da RAMA, situadas na zona de Torres Vedras, fora do ambiente urbano, entre a paisagem florestal e agrícola. A deslocação para o campo criou condições para a artista desenvolver com mais intensidade e liberdade as suas caminhadas, meditações e trabalho de ateliê, que coincidiu com o período mais confinado da pandemia, que todos atravessámos.

O trabalho a aguarela sobre papel demonstra uma excepcional proficiência no domínio desta técnica, que permite representar figurações tão diversas, algumas delas mais ficcionais, por vezes abstractizantes, mas também objectos da memória colectiva que a artista procurou em dois museus situados na cidade de Torres Vedras2, ou artefactos de proveniência muito diferente, como livros, obras de arte de todos os tempos e outras imagens, que transitam ainda da Itália. Todo este processo contribui para a criação do atlas visual que é de facto a “Synecdoche”, uma visão simultânea, e assim paradoxal, da parte e do todo, fragmentada em diversas geografias do imaginário espiritual e metafísico da condição humana, enquanto acto artístico e expressão da sua vida.

A obra apresenta uma paleta quase homogénea, tintada em subtis gradações que variam, por vezes, em tonalidades intensas, quase obscuras. A composição percorre-nos no momento da observação como se estivesse animada, em folhas de diferentes formatos, e expressa uma variação de planos que não é sujeita a qualquer hierarquia formal ou temática, transmitindo um pathos de proximidade tão próprio da matéria da pintura. A percepção do espectador é reconfigurada em cada momento, sob um itinerário imagético sem princípio nem fim, como de certo modo também ocorre em obras de Christian Boltanski, onde a composição expressa uma referência à religiosidade na arte sob a forma de painéis de imagens seccionados ou fragmentados, ou mesmo rememorando Mnemosyne, a incompleta obra de Aby Warburg.

Mas todo este pensamento sobre a totalidade e a parte na obra está intimamente relacionado com uma lógica de jogo, de troca de culturas e referências de épocas históricas. No período do confinamento, Valsecchi desdobra, se assim se pode dizer, o formato da obra para uma plataforma digital, disponibilizando cada uma das imagens através de um open call para que qualquer pessoa, de qualquer geografia do mundo, possa contribuir com uma frase sobre a sua concepção do sagrado. A obra, agora em exposição, já integra no seu estado actual uma rede de relações e de partilhas humanas, constituindo-se como uma representação metafórica de uma hierofania. Regressamos aqui a uma questão, inicial neste texto: a possibilidade da representação de uma referência ao espaço sagrado e simultaneamente da sua dessacralização, enquanto obra de arte que nos é coeva e nos confronta.

Este confronto transita da parede para o espaço do corpo do espectador, em presença da escultura intitulada “Vertigem”. Trata-se uma obra que apela a uma imaterialidade do espírito, no movimento que as cordas suspensas anunciam. Contudo, os nós de forca e o assento vítreo e quebradiço atribuem-lhe uma alegoria das pulsões, ou instintos da vida e da morte, numa acepção mais freudiana. A figura do baloiço acolhe uma multiplicidade de referências, do culto xamânico ao esplendor dionisíaco, no jogo do amor, na loucura ou na tragédia, como por exemplo no mito grego de Erígone, entre Eros e Tânato (ver por exemplo Raffaele K. Salinari, L’Altalena). O balanço, porventura vertiginoso, é uma impossibilidade ontológica que reside na sua materialidade enquanto objecto dado ao corpo, como escultura que demanda o desejo e como ícone nas suas referências históricas e mitológicas. “Vertigem” é uma obra que convoca em nós uma tensão interior, metafísica, volátil e dialógica, no sentido de nos propor uma miríade de questões interpretativas sobre a realidade intangível dos sentimentos e da morte.

Por João Silvério

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1 Sobre esta obra, consultar o website da artista: https://elenavalsecchi.com/synecdoche/

2 Museu Municipal Leonel Trindade -> http://www.cm-tvedras.pt/cultura/museu-municipal/enquadramento-museu/ Atelier dos Brinquedos -> http://www.cm-tvedras.pt/cultura/atelier-dos-brinquedos/

HElena Valsecchi

Artista italiana e portuguesa, HElena Valsecchi nasceu em Novara, Itália, em 1976. Atualmente vive e trabalha entre Lisboa e Peniche, Portugal.

Por meio de uma reflexão sobre a pintura, vista numa perspectiva mais ampla e incluindo a instalação pictórica e, nela, fenômenos físicos como sombras e reflexos, HElena Valsecchi investiga as dimensões da vida/morte/sagrado/memória através da retórica do duplo, e da sua experiência no contexto contemporâneo.

Desde 2015, expõe regularmente em Portugal e no estrangeiro, tendo participado em várias residências artísticas.

Bolseira Carmona e Costa / Sá da Costa / MArt do programa de Residências Artísticas da MArt 2019–2020.

Desde 2020, colabora com a RAMA – Residências Artísticas da Maceira e Alfeiria, Torres Vedras.

Visitar WEBSITE da artista

Vista geral do espaço de exposição | Overview of the exhinition space
#1 Synecdoche, 2020-...
 
210 aguarelas sobre papel de dimensões variáveis | 210 watercolours on paper with variable dimensions
Painel completo | full  panel  205 X 1222 cm

#2 Vertigem, 2022
Vidro e corda | glass and rope 
Dimensão variável | Variable dimension 

Synecdoche - Epiphany, 2020
Aguarela sobre papel |  Watercolour on paper
29,6 x 40,6 cm
Nel Ritmo, 2022 da série Synecdoche
aguarela sobre papel | watercolor on paper
45,5 x 56,4 cm
About fly, 2022 da série Synecdoche
aguarela sobre papel | watercolor on paper
6,6 x 32,9 cm

Blessure | Blessing, 2021

13 Impressões jacto de tinta, goma arábica e pigmentos locais s/papel  | 13 Inkjet printing, gum Arabic and local pigments on paper 

Dimensões variáveis | Variable dimensions

 La Nostalgie du Paradis , 2021

Água do oceano, água ambiental, aguarela s/papel | Ocean water, environmental water, watercolor on paper

Painel: 190 x 190cm