In EXPO PASSADA

Sofia Leitão

Sustainability everyday

Inauguração quinta-feira, 14 outubro | das 17h às 20h
Exposição:  15 de outubro a 15 de novembro de 2021 | Segunda a Sexta, 14h30 – 19h

Espaço Camões da Livraria Sá da Costa

Praça Luís de Camões, 22, 4º andar, 1200-443, Lisboa 

Esta exposição apresenta um conjunto de trabalhos, das séries Grutas e Sustentabilidade Natural, realizados entre 2019 e 2021.

Com uma paleta cores vivas e variações de luz Sofia Leitão, recorrendo à utilização de materiais reciclados e técnicas de assemblage, aguarela, acrílico, guache e tinta da china sobre papel, explora com mestria as formas, relevos e texturas, conferindo dinâmica e tridimensionalidade às suas obras.

Organizada pela Ocupart em parceria com a Sá da Costa Arte esta exposição poderá ser visitada até 15 de novembro, de segunda a sexta, das 14h30 às 19 horas, na Praça Luís de Camões, 22, 4o andar, 1200-243 Lisboa, ou noutro horário mediante marcação prévia para geral@ocupart.pt ou para a.sadacosta.mi@gmail.com.

Paraísos Artificiais

por José Sousa Machado

A proliferação de sinais visuais, referências, estímulos, materiais utilizados, técnicas compositivas, estilos e géneros artísticos perceptíveis nas obras de Sofia Leitão, expostas agora no Espaço Camões da Sá da Costa, são de tal envergadura que, num primeiro relance, a mente, o olhar e a percepção visual do espectador vacilam confundidos, sem perceberem exactamente por onde devem iniciar a navegação exploratória neste oceano artístico multifacetado. O próprio titulo da exposição – “Sustainability everyday” –, desgarrado e solto destas pinturas(?), esculturas de parede(?), parece encaminhar-nos neste sentido, acrescentando novas possibilidades de leitura a este conjunto de trabalhos quando, na realidade, é através dele que se clarifica o novelo visual inicial, pois a matéria prima que Sofia Leitão utiliza nas suas obras é maioritariamente composta por materiais reciclados, desperdícios reaproveitados, refugo e lixo das sociedades de consumo, testemunhos da sua voracidade insaciável – esferovite pintada, redes, arames, papel de prata, madeiras, grânulos diversos. Na verdade, cada uma das obras de arte expostas evolui a partir de uma sucessiva reunião de materiais desgarrados que só possuem em comum serem os despojos gritantes da produção industrial massiva no seu afã incontrolável de busca de mais e mais recursos naturais, esventrando o planeta. Este tópico específico da obra de Sofia Leitão confere-lhe qualidades estéticas e até ideológicas que a aproximam de um território amplamente explorado pela Arte Povera. Também a articulação dos diferentes materiais pintados sobre o suporte, oferecendo-nos a ilusão de acompanharmos a par e passo o processo construtivo de cada obra e o modo como ela foi adquirindo autonomia relativamente às restantes, acrescenta um caracter performativo a estas séries, como se fôssemos espectadores não só da obra acabada, mas também da sua maturação faseada e revelação final. Esta característica é perceptível de modo incontornável na Instalação que Sofia Leitão mostra numa das salas do espaço expositivo; uma peça tridimensional que ocupa a sala inteira, na qual o novelo perceptivo de que falámos se acentua através dos jogos de luz e sombra, reforçados pela banda sonora que a acompanha.

Mas Sofia Leitão é sobretudo uma herdeira de segunda geração do movimento Pop; desde logo, nos temas escolhidos que resvalam ambiguamente para a imagem publicitária, quando promove destinos idílicos, lugares paradisíacos que nos proporcionam lampejos de felicidade, pedaços de eternidade a conta gotas; mas, também, no investimento criativo que denota na exploração da plasticidade superficial dos materiais pintados e colados sobre o suporte, qual pele sensorial sob a qual radica um vazio sideral.

O paradoxo e a ironia desta exposição residem justamente em a artista se socorrer da pobreza substancial dos materiais usados para nos “oferecer” o luxo de paisagens cálidas, com palmeiras ondulando ao vento, paraísos artificiais em suma. Esta contradição insinuante e incómoda tem parecenças com o ideário poético de alguns escritores concretistas brasileiros, nomeadamente com Harold de Campos no seu poema Luxo/Lixo ou, com aqueloutro, de seu nome Ferreira Gullar, no seu longuíssimo poema intitulado “Poema Sujo”

Finalmente, apenas mais um apontamento sobre como a artista inscreve a tridimensionalidade nos seus trabalhos: Enquanto na sala do lado direito do Espaço Camões, se expõe uma série intitulada “Grutas”, maioritariamente composta de obras com objectos reciclados salientes, pintados e colados sobre o suporte, na sala do lado esquerdo, Sofia Leitão agrupou obras que nos transportam para jardins, flores, ambientes naturais, desenhados também com o recurso a cortes e rasgões no suporte, deixando transparecer a sombra vacilante dos desenhos projectada na parede.

 

Sofia Leitão

Sofia Leitão (n. 1971), nasceu em Londres onde estudou arte. Vive e trabalha em Lisboa nos seus dois estúdios. Artista plástica que trabalha essencialmente com pintura contemporânea, Artista laureada em prémios de pintura internacionais, tem realizado permanentemente exposições individuais e coletivas em todo o mundo há mais de 27 anos. A sua obra faz parte de coleções públicas e privadas.

O seu trabalho é marcado por um elevado domínio de cor, contraste e textura aliado à instigação do sentido escultural da pintura. Sofia tem uma forma única de nos apresentar o mundo à sua volta. O seu corpo de trabalho é marcado pelo uso de materiais sustentáveis e reciclados, aproximando-se ao conceito de Arte Póvera da década de 60 onde artistas como Michelangelo Pistoletto e Giuseppe Penone se manifestaram através da ideia de aproximação da arte ao quotidiano a partir dos matérias utilizados.

Sofia Leitão está atualmente a trabalhar em obras e pinturas tridimensionais inspiradas em paisagens portuguesas e ambientes industriais.